quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O de "Onde se lê gato"


[17/10/10]
 

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.


Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam.
Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.


Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.


Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000

terça-feira, 17 de outubro de 2017

S de Sense of Snow (VIII)


A CULPA COLECTIVA



A neve é um esforço, nunca dorme, 
nunca pode dormir. A última neve
talvez não chegue a cair, talvez não possa
voltar a unir a água na brancura
passageira das suas mãos. Sim, amanhã
talvez não chegue a nevar, cairá a chuva,
e ao olhar de Deus seremos náufragos
de morte semanal e para sempre.


Luis Rosales, Rimas y La casa encendida, 1979
[Trad. ID]

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

I de Intimidade - b


Termina assim um poema de W. B. Yeats:

"I have spread my dreams under your feet; 
Tread softly because you tread on my dreams."


*


Termina assim um poema de Jean Genet:

"Mais pour me parcourir enlève tes souliers."




[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 03/014]

domingo, 8 de outubro de 2017

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIII)


[Para a Maria e o Ricardo]



OS GATOS


Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


- MANUEL ANTÓNIO PINA




[Capa de Maria João Worm
para Cão Celeste n.º 11, Lisboa, Agosto de 2017]

sábado, 30 de setembro de 2017

O de Outono (VIII)


MARA

A chuva
não veio, os tinteiros
estão vazios,
os sonhos acomodam-se
em latas de cerveja.
Porque o Setembro,
porque esta folha de papel
fica branca, tu não dás
com a minha porta, mas
o meu cabelo cresceu,
as divas sorriem-nos
dos cartazes,
com as palavras
que eu não encontrei
um outro mata
a sua sede.
Jürg Beeler (trad. de João Barrento)
in Bumerangue 3, Guimarães, 1997




[ID, Lisboa | 012]

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

N de "No fundo, é isto" (III)


Lisboa, 18-19 de Dezembro de 1977


Minhas coisas tão docemente amadas, meu Oceano que és para mim o que nunca foste nem serás para ninguém, minhas manhãs de tímidas madrugadas, minhas águas correntes de regatos imensos que não estão no corpo mas na alma e desaguam sempre noutro rio até chegarem àquele a quem os antigos chamavam Letes. Minhas queridas nuvens:

É uma grande ingratidão amar-vos tanto e ainda vos não ter escrito. Mas sei que me hão-de perdoar. Se só agora vos falo é porque talvez esteja agora mais longe de vós e mais sinta a vossa falta. Talvez por ter sido sempre impenetrável na minha completa solidão e me convencer finalmente que vou morrer tão só como nasci e cresci. Só que então eu não dava por isso. Damos sempre pelas coisas quando elas já passaram… Não sei porque escrevi «Damos»… «Dou» era o que eu devia ter escrito. Esqueço-me sempre de que só posso falar — e aproximadamente — de mim. Com o resto nem sequer me devia preocupar. O milagre de estar vivo e de vos conhecer é tão grande que me devia bastar para encher os dias todos, mesmo que eles fossem muitos. Mas… esquecemo-nos tão depressa destas coisas tão simples! Lá estou eu a falar outra vez no plural! Nisto como em tantas outras coisas não vou ter emenda até ao fim dos meus dias.

Quando vocês me conheceram eu ainda não dava sequer por vós, meio assustado ainda com a vida… Agora já muito pouco me assusta, ia a dizer quase nada. Por isso abro mais vezes os olhos para vós e chego a pensar que me escutam.
Foi tudo tão rápido embora eu goste de velocidades!!! E no meio de duas pessoas que se encontram como no meio de alguém que se encontra a si próprio há sempre um espaço qualquer que nem por poder ser muito pequeno deixa por isso de ser muito importante. Tão importante que se não existisse não havia o Mundo… Tenho pena de vos deixar assim… Mas não é o hesitar que faz o êxito. E muito menos o ser de Tão Longe.

Tenho-vos sempre na lembrança.

Mário


Mário Botas
in Aventuras de um  crâneo e outros textos,
org. de Daniela Gomes, Inês Dias, Luis Manuel Gaspar e Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno 2013




[ID, Nazaré | 013]

terça-feira, 19 de setembro de 2017

M de Moeda única (ou T de Tempo)




Manuel de Freitas, Jukebox 2,
com capa de Inês Dias, Teatro de Vila Real, 2008





Inês Dias, Café Estádio, 2013

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

T de Tratado de Pedagogia (LXVIII)


Depressa antes que se veja
traz a água quente, a água
oxigenada, o mercúrio, a tintura,
a lixívia, a borracha.
Cortei, desenhei do outro lado
um fruto, forma de uma linha
única, queria pôr do outro lado
outro coração. Mas não há
outro lado nem outro coração,
depressa não quero que vejam
não quero.


Helder Moura Pereira, Mercúrio,
Lisboa, frenesi, 1987

F de Falar para as paredes (IX)


TEMA


Foram quintais de dois invernos,
um desenho na janela para explicar
qualquer coisa sobre nós, qualquer coisa
terrivelmente alheia às palavras. 

Pequenos alicerces do próprio tempo,
quem diria que os podíamos
apagar? Iam do princípio ao fim
dos meses, era onde se agarrava 
o ramo branco da casa.


Rui Pires Cabral, Praças e Quintais,
Lisboa: Averno, 2003




[ID, S. Miguel, 17/08/11]



NOMEAR-TE


Não o poema da tua ausência,
Apenas um desenho, uma fresta num muro,
Algo no vento, um sabor amargo


Alejandra Pizarnik, 30 Poemas, 
trad. Inês Dias e Manuel de Freitas, 
Lisboa: Língua Morta, 5 de Setembro de 2011

sábado, 16 de setembro de 2017

T de Tratado de Pedagogia - LXII


Outro dia reli o romance de Thomas Mann, A Montanha Mágica. Este livro encena uma doença que eu conheci muito bem: a tuberculose; através da leitura, reunia na minha consciência três momentos  dessa doença: o momento da anedota, que se passa antes da guerra de 1914, o momento da minha própria doença, por volta de 1942 e o momento actual, em que a moléstia, vencida pela quimioterapia, já não tem a mesma gravidade que tinha antigamente. Ora a tuberculose que vivi é muito pouco parecida com a tuberculose da Montanha Mágica: os dois momentos confundiam-se, igualmente afastados do meu presente. Apercebi-me então com espanto (só as evidências podem espantar) que o meu próprio corpo era histórico. Em certo sentido o meu corpo é contemporâneo de Hans Castorp, o herói da Montanha Mágica; o meu corpo, que ainda não tinha nascido, tinha já vinte anos em 1907, o ano em que Hans penetrou e se instalou na "região do alto"; o meu corpo é bastante mais velho do que eu, como se nós conservássemos sempre  a idade dos medos sociais por que passámos ocasionalmente. Se, afinal, quero viver, devo esquecer que o meu corpo é histórico e devo alimentar a ilusão de que sou contemporâneo dos jovens corpos presentes e não do meu corpo passado.  Numa palavra, devo renascer periodicamente, tornar-me mais jovem do que sou. [...] Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas surge em seguida uma outra em que se ensina o que se não sabe: a isso se chama procurar.


Roland Barthes, Lição
trad. Ana Mafalda Leite, Lisboa: Edições 70, 1988

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A de A poesia é o menos (XI)




Miguel Martins, O Caçador Esquimó,
Lisboa, Fahrenheit 451, 2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

U de "Uma Correspondência" (IV)


"Segunda-feira

Desde que comecei a escrita do diário vejo que te interessas ainda muito por mim.


Terça-feira

Sinto que desejas ler o que escrevo.


Quarta-feira

Hoje removi as pedras no horto para que pensasses que escondia aí estas páginas. E, de facto, tu repetiste os meus gestos e ficaste desiludido.


Quinta-feira

Leio nos teus olhos que estás a sofrer. Então é verdade que ainda me queres bem.


Sexta-feira

Hoje quero que encontres estas pequenas linhas e percebas que és a minha vida."



Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria,
trad. de Mário Rui de Oliveira, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A de Abrigo


ABRIGO DOS CÉUS


Eu tenho desejado ir
Onde as primaveras não falham,
Aos campos onde moscas, atrevidas e astutas, não habitam,
E alguns lírios nascem.

E tenho pedido para estar
Onde nenhuma tempestade há-de chegar,
Onde a corrente verde está abrigada e muda,
E fora da oscilação do mar.


- Gerard Manley Hopkins
in Piolho n.º 11, trad. Ricardo Marques,
Edições Mortas / Black Sun Editores, Agosto 2013


*


"[...]
Desiguais abismos, maneiras de se
se estar só, encontram aqui um abrigo
temporário, senão a própria rasura do tempo.

[...]"


- Manuel de Freitas, Juros de Demora
Lisboa, Assírio & Alvim, 2007


*


"[...]
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

[...]"


- Renata Correia Botelho, Small Song,
2.ª ed., Lisboa: Alambique, 2015


*


"[...] estar ao abrigo do fim do amor, é a isso que eu chamo felicidade."


- MARGUERITE DURAS





[ID, 5 de Setembro de 2017]

domingo, 3 de setembro de 2017

D de Domingologia (II)


Entra agora
a infância toda
aos bocadinhos, ossos

no chão, engomados
domingos a beijar
avô, bisavô

trémulo na Rua
dos Dous Amigos, casas
pequeninas
guardadas em caixotes.

Entra agora a jarra
de flores, a mesa
limpa e a janela

abrindo.


José Carlos Soares, De passarem aves
Coimbra, do lado esquerdo, 2014





[ID, Sintra | 04/017]

domingo, 20 de agosto de 2017

C de "celui qui regarde une fenêtre fermée" (III)



[ID, Lisboa | 06/011]



GATO EM APARTAMENTO VAZIO


Morrer - isso não se faz ao gato.
Pois que há-de um gato fazer
num apartamento vazio. 
Ir arranhando as paredes.
Roçar-se por entre os móveis.
Por aqui nada mudou
mas está mais que mudado.
As coisas estão nos sítios,
mas os sítios outros são.
E nem se acende a luz pela noitinha. 

Ouvem-se passos na escada,
todavia, não os tais.
A mão que põe no pratinho o peixe
também não é a que antes punha. 

Algo aqui não acontece
às horas que acontecia.
Algo há aqui que não corre
como devia correr. 
Alguém aqui esteve, esteve,
e agora teima em não estar.

Vasculhados todos os armários.
Percorridas todas as prateleiras.
Uma vez verificado o chão sob a alcatifa.
Contra todas as proibições até,
espalhados os papéis. 
Que é que fica ainda por fazer.
Dormir e esperar.

Deixa-o só voltar,
deixa-o lá mostrar-se.
Há-de aprender
que com um gato não se brinca assim. 
Há-de um bicho ir-se chegando para perto,
como quem não quer a coisa,
bem devagar,
muito sobre as patinhas ofendidas.
E ao princípio nada de saltar nem de miar.


Wislawa Szymborska, Paisagem com grão de areia, 
trad. de Júlio Sousa Gomes, Lisboa, Relógio D' Água, 1998




[ID, Lisboa | 04/015]

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

F de Fosforologia



PATERSON, 2016 (JIM JARMUSCH)


Os poemas são como o mundo: não rimam. Voltam, desaparecem, tentam dizer o peso da água ou o aroma ténue da cerveja. São uma trela no escuro, depois de termos queimado todos os fósforos. Escrevemos, num caderno vazio, a palavra ausência. Talvez amanhã seja outro dia.

[...]



- Manuel de Freitas 
in Telhados de Vidro n.º 11, Lisboa, Agosto de 2017




Jim Jarmusch, Os limites do controlo (2009) | Paterson (2016)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

I de "I want to ride my bike" (X)



E. M. CIORAN

R de 'Respirar debaixo de água'


A MINHA IRMÃ


Passava as horas recostada no sofá, ela
era chuva e cascata do beiral.
Aumentava o volume para não ouvir os passos
cansados no corredor.

Ela sabia correr e encher de ar os seus pulmões,
mergulhar quatro metros abaixo de água
até obter importantes troféus de bronze.

Uma vez pensei no perigoso que era suster tantos minutos a respiração,
cheguei a acreditar que desapareceria para sempre.
Vivia a ilusão do não regresso: afundar-se abaixo do nível,
alguns centímetros abaixo do nível. Ninguém se sente bem na tempestade sempre.

Para permanecer é necessária a descida.


Jeannette Lozano (trad. Inês Dias)
in Telhados de Vidro n.º 19, Lisboa, Averno, Maio 2014





[Imogen Cunningham, "Aiko's hands", 1971]

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

P de (Po)ética - XLIX e







Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

S de Santa Cruz (XVI)




[ID, 'Do (meu) mundo', 08/017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (XXXIX)


SOBRE OS PERIGOS DE TOCAR MÚSICA MEDIEVAL
- para Inês Dias e Ana Isabel Dias


Hipnotizantes, as pequenas mãos da harpista, pousadas,
balançando cada lado do espelho

que é ruído branco da cascata,
impedindo-nos de fazer a travessia para o Vazio.

Quando aquelas mãos voam, uma em direcção à outra,
o erotismo de ver e de tornar órfico,

- uma calma mais profunda no som - também a harpista,
arriscando-se a perder o toque que os seus dedos devem ter,

está em perigo de se hipnotizar a si mesma
com a sua própria e bem ensaiada divindade.


John Mateer, Descrentes,
trad. Andreia Sarabando, Coimbra, DSO, 2015





[ID, 'God is in the details', Londres | 2014]

A de "até que os fios do coração"


SOBRE O LADO ESQUERDO


     De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
     No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».


- CARLOS DE OLIVEIRA




[14/03/011, às 7h40]

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

P de "Paradise Parking"


ESTRANHA FORMA DE VIDA


Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas 
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.


CARLOS MARZAL
[Trad. ID]





[ID, Santarém, Agosto de 2012]

segunda-feira, 31 de julho de 2017

I de 'I want to ride my bike' (IX)




Jeanne Moreau
[1928-2017]

domingo, 30 de julho de 2017

C de "Chama a luz com um assobio" (II)


CASTELO DA BAIXA-CHIADO


As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci.

Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz

lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão

nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança

era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho

junto às ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição

bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua

nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida

num leito de folhas mortas.


João Miguel Fernandes Jorge, Castelos I a XXXV,
 Lisboa: Averno, 2004