sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

C de (Re)começo







"[...]

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio."


- RUI PIRES CABRAL

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

E de Estudos literários comparados (II)


A Terra precisa tanto de mais parques de estacionamento
como nós precisamos de mais remendos de asfalto
implantados no rosto e nos órgãos genitais
para que minúsculos discos voadores
do Planeta dos Germes Extraterrestres
possam estacionar em nós como as moscas
que E. Dickinson ouviu zumbir
à volta da sua cabeça quando morreu.


Hakim Bey (trad. Inês Dias)
in Cão Celeste n.º4Lisboa, Novembro de 2013


*


I heard a Fly buzz – when I died – 
The Stillness in the Room 
Was like the Stillness in the Air – 
Between the Heaves of Storm –

The Eyes around – had wrung them dry – 
And Breaths were gathering firm 
For that last Onset – when the King 
Be witnessed – in the Room –

I willed my Keepsakes – Signed away 
What portions of me be 
Assignable – and then it was 
There interposed a Fly –

With Blue – uncertain stumbling 
Buzz – Between the light – and me – 
And then the Windows failed – and then 
I could not see to see –


- EMILY DICKINSON

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

M de "My house, I say" (II)




A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do
abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes
errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudades desesperadas a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros
anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra




Ernesto Sampaio, Fernanda,
Lisboa: Fenda, 2000

[Fotografias: ID, 02/014]

E de Espera (LVIII) - 1.º Domingo de Advento


"(...) É para isso também que serve o círculo, a sua ideia. Serve para preparar o caminho da escuridão e do desconhecido, um caminho inteiramente interior. Às vezes apetece-me desejar a mim mesmo boa-noite, antes de me virar sobre o meu lado direito, que é o lado em que sempre penso trazer o coração."


João Miguel Fernandes Jorge, O Próximo Outono,
Lisboa, Relógio D'Água, 2012

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

M de Mesa de Amigos (X)


IV.


Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
[...]


Herberto Helder, Ofício Cantante,
Lisboa: Portugália, 1967




[Imagem: Paul Klee, "Nächtliches Fest", 1921]

J de (O) Jardim e a Casa (V)


PROPORÇÃO


No céu há uma lua e estrelas,
E no meu jardim há mariposas amarelas
Agitando-se em torno do arbusto de azáleas brancas.


Amy Lowell (trad. de Miguel Martins)
in Telhados de Vidro, nº 14, Lisboa, Averno, 2010

Q de "Quero a alegria de um barco voltando" (II)





domingo, 20 de novembro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXV




Diferença


Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro. Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti, desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda, de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras (por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho). Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me, seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes. Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu. Estás só, por isso estás comigo.


Jorge Roque
in Broto Sofro, com pinturas de Guilherme Faria
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2008

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

C de Começar o dia com um livro novo (XLVI)




João Paulo Esteves da Silva, Tâmaras,
Lisboa, Douda Correria, 2016

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

B de Biorritmo - LXXI b


LEONARD COHEN, 1979


Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de "other forms
of boredom advertised as poetry",
denúncia que se mantém válida.

Não serão bússolas duradouras
- tudo, enfim, falece -,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.

Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontramos lume.


Manuel de Freitas
in pequena morte: poemas, Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2008

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

P de Poesia (V)




"E se aquilo que não sabemos 
pudesse ser medido em quilómetros?"
(Catarina Mourão)



quarta-feira, 9 de novembro de 2016


V

A última vez que te encontrei foi diante do Banco Qualquer Coisa. Verificavas o preço das acções. Elas baixaram, não há dúvida. Talvez isso prejudique o teu futuro na América e até mesmo a tua actual capacidade para os estudos. És fraco e não podes impedi-lo. Se fosses resoluto poderias ordenar a um dos responsáveis: "sobe-me essas acções, badameco!"
Não confio já nos santos ou nos poetas e muito menos nos heróis.
Tudo é agora uma questão de mais ou menos brutalidade, de maior ou menor capacidade de matar. Impunemente - é preferível.
As acções baixam - não há dúvida.


Manuel de Castro, "Hans e a mão direita"
in GRIFO - Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores, 1970




[Guimarães, 2/08/013]

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A de Amor


CONTA-MO OUTRA VEZ
                           
                               
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me que o par
do conto foi feliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor;
é a história mais bela que conheço. 

        
AMALIA BAUTISTA




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

S de Sexta-feira (V)


"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."

JORGE DE SENA



[ID, Madrid, Agosto 015]

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

D de Donas gatas


[...]

Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Mas encontrar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamente de acordo, não entra completamente na nossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

                               a vida + um gato

o que dá, asseguro-vos, uma soma enorme.

[...]


- in Mitsou, quarenta desenhos de Balthus com um prefácio de Rainer Maria Rilke, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2002



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

D de (Os) despojos do dia *




*

S de Solidão (ou C de Comunidade) II


ANUNCIAÇÃO
- segundo Fra Angelico


Ele veio do jardim, sem deixar
nem sombra, nem pegada sobre o orvalho.
Os olhares de ambos sustêm-se no ponto
de equilíbrio: tudo conduzindo 
a este momento, tudo se afastando.

Uma palavra lançará a semente
da vida e da morte,
o ensombrar desta rapariga
por umas trevas emplumadas.
Mas ainda não: agora ainda não.

Como recordará ela o silêncio
desse interminável momento?
Ou o final, quando tudo começou -
a primeira de sete alegrias
antes das sete dores?

Ela recordará a canção a seguir
porque é apenas humana.
Um dia
acordará com asas, ou acordará
e descobrirá que elas desapareceram. 


Robin Robertson, Hill of Doors,
Londres: Picador, 2013
[Trad. ID]












                           
                                           
«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006

terça-feira, 1 de novembro de 2016

L de Lost in translation


A MORTE E A DONZELA



AMY LOWELL (E.U.A., 1874-1925)


GROTESCO


Porque é que os lírios me deitam a língua de fora
Quando os corto;
E se torcem e contorcem
E se estrangulam entre os meus dedos, 
Ao ponto de mal conseguir tecer esta grinalda 
Para o teu cabelo? 
Porque é que gritam o teu nome 
E me cospem 
Quando os tento juntar?
Terei de os matar 
Para que fiquem quietos, 
E enviar-te uma coroa de cadáveres suspensos 
Que murchem e apodreçam 
Na tua testa  
Enquanto dansas?


*


ANTONIA POZZI (Itália, 1912-1938)


NOVEMBRO


E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.


*


ALEJANDRA PIZARNIK (Argentina, 1936-1972)


CAPÍTULOS PRINCIPAIS


Chega a morte com o seu rebanho de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro trabalho senão odiar
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e o escuro,
o copo e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.



Poemas escolhidos/traduzidos por Inês Dias,
 aqui compostos/impressos por Luís Henriques e Manuel Diogo 
para A Faca Romba, Lisboa: Oficina do Cego, 2012




sexta-feira, 28 de outubro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade ) XLIX b




[ID, 'Anunciação', Ponta Delgada, 011]

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A de Amor (XXVI)


ERRATA


Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê? 
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.


MANUEL DE FREITAS
in Terra Sem Coroa, Teatro de  Vila Real, 2007

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

L de "Les yeux du chat"




[Franz Pforr, "Sulamita e Maria", 1811 - detalhe]





[Friedrich Overbeck, "Retrato do pintor Franz Pforr", c. 1810]

sábado, 22 de outubro de 2016

Começar o dia com um livro novo (XLV)


A CADA DIA


A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[...]

A cada dia o seu poema de viver:
ver o Anjo da morte e não morrer.


António Barahona, Ocarina (Terceiro Tômo da Suma Poética),
com capa de Andrea Martha (Mumtazz) e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2016





[ID, 'Aubade', 2013]

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A de Amor (XXV)


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O de "O poema ensina a cair" (II)


VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA


eu não entendia
e ela se mexia tanto ao meu lado
e aqueles bancos apertados
o ar condicionado gelando
tudo (os brincos dela,
o meu humor)
mais de uma hora cruzando
ruas, avenidas, parágrafos – 
o livro gritando alto
para um mundo ensurdecido
depois de arrumar-se mais
algumas dezenas de vezes
o sol já estava no meio do céu
quando ela se levantou
foi então que percebi que
três pequenos pássaros
voavam em suas costas


- FABIANO CALIXTO





[ID, Lisboa |  2012]

F de Fazer Fotografia (LXXIII)


PHOTOGRAPHY
 

A fine wind blows into the heart,
And you fly headlong on,
While love within the roll of film
Holds the soul fast by its sleeve.
    
Bird-like she steals grain by grain
From oblivion - and now?
She does not let you fall to dust,
Even dead you're still alive -
      
Not wholly but a hundredth part,
In muted tone or sunk in sleep,
As if you wandered through some field
In a land beyond our ken.
     
All that's dear and seen and living
Makes the same flight as before,
Once the angel of the lens
Has your world beneath his wing.
      

Arseniy Tarkovsky, 1957
in Andrey Tarkovsky, Bright, bright day,
Londres: White Space Gallery / The Tarkovsky Foundation, 2007

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

S de Solidão (ou C de Comunidade) X


Assim escrevo
alegre e inspirado com a palavra.
Folheio as obras dos velhos e novos
e faço-o confiante. Mas estou cercado
de vocábulos que me atacam pelas costas.
Sou um poeta difícil:
Ausculto a sílaba que contém
o movimento futuro da estrofe.
Sim, a poesia é a menos saudável das ocupações.
E ser poeta não é uma ambição minha:
É a minha maneira de estar sozinho.


António Barahona, Impressões Digitais (1968)

V de Vida (VIII)


"Vous ne pourrez jamais voir cette étoile comme je la voyais. 
Vous ne comprenez pas: 
elle est comme le coeur d'une fleur sans coeur."


- ANDRÉ BRETON - 




[Andrei Tarkovsky, A Infância de Ivan, 1962]

A VIDA


Da flor japonesa à coxa da rã galvanizada, vai ser preciso dormir muito para nos apercebermos da transformação. Da porta que é um corpo-a-corpo, à janela que é uma peleja, o soalho é um papagaio, o tecto um corvo que teve medo.
Há ainda a recordar do dia seguinte, a recordação de atrozes aventuras num nevoeiro de enforcado. Sabe que foi denunciado, que um parapeito está dali em diante à sua volta para o impedir de se lançar no relógio inútil que se pôs a indicar as horas. A aurora da tarde filtrada lembra-lhe a carne pura que, na proximidade dos homens, sempre desaparece num ruído de canaviais. Porque ele tocará a carne muito tempo sem a sentir e, quando a sentir, será à maneira daqueles animais encantadores que apenas sonham com a liberdade.
Toda uma rede de caretas e de contorções se opõe a que a jangada da sua idade regresse à secreta fonte do seu coração. A tarde em vão fecha a porta, uma estrada de passos, de sons, de esperança e de fadiga sempre lhe mostra aquelas grandes construções negras em que tudo para ele se compõe.
O vago substitui pouco a pouco o determinado. Em vez do sangue estende-se o mata-borrão, o mata-borrão que se embebe nas suas cartas sempre maniacamente datadas de Creusot. Olhos puros de nuvens pousam sobre ele como a ave na sua sombra. Lâmpadas varrem com a sua saia de pedra a escadaria de prata que vai dar ao grande ar dos países sem janelas. Que procura então este homem que faz uma mancha na terra? Este pobre quebra-luz lá está sobre a lâmpada das estrelas cadentes. Debate-se com a sombra matizada que choca nas suas pregas ovos de galinha-d’água, donde nascerão em hora adiantada o dever, a oportunidade a pequena felicidade e o fracasso. Os poderes do desespero com as suas rosas de sabão, os seus afagos desencontrados, a sua dignidade mal vestida, as suas respostas fugidias a perguntas de granito apoderam-se dele. Levam-no à escola das escórias, depois de o terem trajado com um avental de fogo. Persuadem-no de que o cabo de vassoura das bruxas cai a pique numa eternidade grotesca de retaguardas brilhantemente esclarecidas. Bocejam-lhe na cara sobretudo, e o que tem de mais trágico, bocejam sobre a mulher sem sequer terem o cuidado de pôr a mão sobre a boca, bocejam dos frutos da mulher com aroma de amêndoas amargas, bocejam da beleza, bocejam da duração, bocejam da recusa desta beleza e desta duração.
Uma manhã, ele lá está, a ver respirar uma cabeleira de anémonas. A rua saúda com todas as suas rodas, Entre todos os astros este... entre todos os astros… este que se submete a este astro inesquecível... Está tão perfeitamente só que se exceptua do total. Fita o dorso dos livros que se arqueiam. Escuta a música que brilha nos sapatos. Por vezes, ao meio-dia, sorri doze vezes. Sorri também à noite, quando tem medo. Põe em todas as suas sensações as algemas do sorriso.


André Breton e Paul Éluard, A Imaculada Concepção, 
Lisboa: Estúdios Cor, 1972

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O de "Onde se lê gato"


[17/10/10]
  
Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.


Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.


Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.

Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

P de Poética (XXVIII)


faço versos para retardar o acidente coronário
podia fazer ginástica de manutenção que era o mesmo
disse de vez: ao diabo o nome nos índices remissivos!
escrevam teses sobre a prenhez do referente
deixem-me olhar a chuva e deixem-me
palitar os dentes - ut supra

não acerto com o Zeitgeist é escusado (e é inútil)
e passa tanto tempo num minuto


Fernando Assis Pacheco,
Memórias do Contencioso e outros poemas, 1980

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

C de Cicatriz (VI)


Pensei, eu podia ter descido aqui naquele dia, talvez tivesse desenhado um lago tranquilo e as últimas flores de Setembro, e voltado para Londres sem cicatrizes. Embora esta cicatriz faça parte de mim, não quero que desapareça, era algo que faltava escrever no meu rosto, nunca gostei de tatuagens, mas era como se esta linha faltasse, talvez tudo tivesse acontecido para que o meu rosto ficasse acabado...


Ana Teresa Pereira
in Karen, Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, Nazaré, 08/10/11]



Sábado, 6 de fevereiro

Estou a ler a tradução francesa de uma série de contos de Henry James. A sedução do outro? Ou o outro que procuramos em nós mesmos? E que no final quando descobrimos que foi um longo passo, um percurso, um tempo interior intensamente vivido tão ao lado do outro, tão com o outro, que num instante por circunstância da história comum se desfaz; se anula por qualquer intempérie quase meteorológica ou por uma caso ou fatalidade que irrompe na vida comum, no dia-a-dia de um ou do outro - tudo vai continuar, quase, como se coisa alguma se tivesse passado. Uma ferida ficou aberta no ar. Está quase em cicatriz. E no início dos inícios, quando tudo chegou ao fim, ou melhor, ao nenhum fim que sempre povoa a história das grandes amizades (...), percebe-se como a partida para o outro, para nós mesmos no outro, na invenção do outro e do outro em nós mesmos, tudo não passou do grande temor pelo desconhecido; um sucedâneo de descida à caverna e de ultrapassagem desse pavor. Olhamos, então, para a cicatriz que restou, para a incisão na pele, na carne, na alma. O outro compensa a realidade, supera-a; é uma ardil com que fintamos a própria existência. Uma espécie de bem-aventurança para contrapesar a esperança, que corrige a raiva ou o pessimismo da fortaleza que nem eu nem o outro, que nenhum de nós já sabe encontrar nos ardis da vida. Sendo estes iguais, exactamente iguais ao tempo da vida.


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012