terça-feira, 23 de maio de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

D de Da Capo




[Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
 com capa de Luís Henriques, Lisboa, Averno, 2013]


*



sexta-feira, 19 de maio de 2017

P de (Po)ética - LIX




"[...]
que el arte es largo y, además, no importa."

- ANTONIO MACHADO

segunda-feira, 8 de maio de 2017

P de Postais - V c


[...]
Primeiro olha para mim. Muito. Diz-lhe Eu só sei
fingir e correr
pela calada. Finjo que te amo quando caminhamos
por uma zona onde podemos ser assaltados.
Eu finjo a coragem e o acolhimento.
Chego-te para mim para que não percebas como o
meu medo gelou esta zona perigosa. Só que eu começo
a tremer e sugiro-te um pouco desse frio.
Então trememos os dois
no frio do meu medo, de braço dado, passo mais rápido,
confundidos, de braço dado, ausentes um do outro,
rasteiros.
Em silêncio após vários dias, continuamos.
E ainda hoje continuamos.

[...]


Nuno Moura, A Minha Casa,
Lisboa, Tea For One, 2016





[ID, 'Parallel Walks', 013]

terça-feira, 2 de maio de 2017

S de Self (III)


77


começa a alvorada como se houvesse outras mais
irá florir a ameixoeira na varanda
e a indestrutível batata-doce

perdi um amigo
talvez dois
desencontrámo-nos, quebranto de encruzilhada
ou por simples fastio

é verdade que não sou íntegro
nem honesto, caio por pouco sem ninguém saber

para fugir à dor na estrada desavinda
por um afago de mão enganada na barriga

mas hoje imponho-me a alegria da rectidão
arrumei a roupa e tomei banho

saio sem pecado para o conhecimento da manhã
aonde quer que me leve


João Almeida, Um milagre no caminho,
Lisboa, Averno, Maio de 2011

S de S.T.T.L.


Sem mo dizeres - compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada. [...] O importante é a comunicação de alma para alma. A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo. Às vezes é um nada que nos faz reflectir, é o momento, é uma figura que nos entra pela porta dentro e de que nos sentimos logo irmãos...


Raul Brandão, "O Silêncio e o Lume"
(Dezembro, 1924)

sábado, 29 de abril de 2017

D de Dansa (VII)



quarta-feira, 26 de abril de 2017

T de Tempo Sem Tempo (XX)


INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA AO RELÓGIO


     Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
     Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada. 


Julio Cortázar, Histórias de cronópios e famas,
trad. de Alfacinha da Silva,
Lisboa, Estampa, 1973




terça-feira, 25 de abril de 2017

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXIII)



ID, Entrecampos | 2000
[era antes do Digital]




ID, Rossio | 2012
[era depois dos Telemóveis]

segunda-feira, 24 de abril de 2017

L de Ler (XIII)




Lá fora
ainda temos luz,
sem esquinas,
dessa que se deixa
às vezes ficar
como a cintura da jovem
junto ao braço do velho
no mesmo banco,
condoída da nossa prisão.

Mas deste lado de mim 
está a cortina da noite,
atrás da noite
a escada que sempre subi 
à tua frente,
dentro da escada
um rato
a escavar, a escavar
por entre os séculos.

E dentro do rato
um coração com urgência
de anjo exausto,
todo o sangue emparedado
da mais solitária personagem
neste nosso romance
com nome de jardim.


Inês Dias, Da Capo,
com capa de Luis Manuel Gaspar, fotografias de Mafalda Capela 
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2014

sábado, 22 de abril de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (L)


PONTO DA SITUAÇÃO


Hoje, eis o que tenho para dizer
Chegou a Primavera
No sangue ligeiro da camarera
Curvada na secção dos detergentes

Ela sabe o bem que traz ao mundo 
- Fearful symmetry... sem dúvida
É bom não ter dúvidas

Ou seja
Não vale a pena andar com o maldito no cu
Tampouco com os guizos da alma à mostra

Segue o corpo
Dá-lhe pousio e esgotamento.


João Almeida, Hotel Zurique,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa, Averno, 2017



sexta-feira, 21 de abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

M de Meia-estação (IV)


Sempre acreditei que só as palavras
me saíam da boca, e eram elas
que me podiam adiar a morte.
Hoje sei que me sai da boca um fio,
transparente e tenaz como uma insónia,
que te atou à minha vida para sempre.


Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. de Inês Dias,
Lisboa, Averno, 2013




[ID, Santarém | 2017]

terça-feira, 18 de abril de 2017

A de Aniversário (VI)


A BIRTHDAY


My heart is like a singing bird
Whose nest is in a water'd shoot;
My heart is like an apple-tree
Whose boughs are bent with thick-set fruit;
My heart is like a rainbow shell
That paddles in a halcyon sea;
My heart is gladder than all these,
Because my love is come to me.

Raise me a daïs of silk and down;
Hang it with vair and purple dyes;
Carve it in doves and pomegranates,
And peacocks with a hundred eyes;
Work it in gold and silver grapes,
In leaves and silver fleurs-de-lys;
Because the birthday of my life
Is come, my love is come to me


- Christina Rossetti (1861)

E de 'Emotional weather report'


segunda-feira, 17 de abril de 2017

F de Falar para as paredes (XIX)





[ID, 'Parallel walks', 2013 | 2016 | 2017]




terça-feira, 11 de abril de 2017

P de Pássaros anónimos (X)


O CORVO


O céu desta cidade não me vence.
Ao ver a lua cheia num rasgão de nuvens
esqueço-me das casas da minha casa,
das ruas da minha rua, das vidas da minha vida.
Há uma noite acesa no meu mundo.

E tu deitas na mesa.
Primeiro as mãos que não querem esperar
pelo corpo à beira do colapso
que julgo financeiro
em matéria de sexos pois são muitos e novos
os que tu disfarças.

Depois vem o aparelho da fala com a tua metafísica
varrida por vassouras de metal pungente
que correm pelo teu rosto e tu tão bem disfarças
com a faca do riso entreaberta.

Por fim o teu cabelo. É belo olhá-lo.
E belo vê-lo pousar como um corvo
na toalha branca do jantar.
E ver por fim a natureza que te ocupa
o órgão do prazer,
a música de Bach ou o ramo de luz
que cresce dos teus olhos.

Não vejo o teu coração, deixei de ver a lua.
E o céu desta cidade não me vence.


- ARMANDO SILVA CARVALHO

segunda-feira, 10 de abril de 2017

P de Poética (LXI)


Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE





Edward Burne-Jones
[detalhe]

sexta-feira, 7 de abril de 2017

R de Regresso ao real (X)


Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.


José de Almada Negreiros, Poemas,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2005





[ID, Guimarães, 08/013]

W de Wild is the wind (XI)


10.


Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre
si mesmo encantado com a luz, mas a
mulher vive indiferente a tudo isso ______

Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas, arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.

É o seu corpo agora que se enrola no
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.



Jaime Rocha, Mulher inclinada com cântaro,
Nazaré: volta d' mar, 2012



video

quinta-feira, 6 de abril de 2017

P de Poética (LX)


"A poesia é tudo o que nasceu com asas a cantar."


Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D' Água, 2016


quarta-feira, 5 de abril de 2017

terça-feira, 4 de abril de 2017

C de Começar o dia com um livro novo - XLIX b




Paulos da Costa Domingos, A Céu Aberto,
com desenhos de Pedro Calapez,
Lisboa, Averno, 2017



sábado, 1 de abril de 2017

C de Começar o dia com um livro novo (XLIX)




Paulo da Costa Domingos, A Céu Aberto,
com desenhos de Pedro Calapez,
Lisboa, Averno, 2017

sexta-feira, 31 de março de 2017

E de 'Em caso de tempestade este jardim será encerrado'


Mais uma vez os jacintos,
celestialmente azuis no meu jardim:
Eles, pelo menos, inalterados.


Amy Lowell, Não eram rosas,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2012




[...]
Poetry is the synthesis of hyacinths and biscuits.
[...]


- CARL SANDBURG

terça-feira, 28 de março de 2017

P de (Po)ética - XLIX d


À BEIRA DE UM MAR PARECIDO


Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over, 2.ª ed. rev.,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2017



terça-feira, 21 de março de 2017

P de Poética (XLII)


ASPECTOS DE UMA DEFINIÇÃO


[...]

- Destrói os teus escritos, já que não tens fé neles.
- São provas contra mim.
- E se todos os teus leitores te absolverem?
- Serei eu a denunciá-los, por serem meus cúmplices.

[...]

Se tivesse coragem, só escreveria poemas anónimos.

*

Escolher uma filosofia? Um taoismo da raiva.

[...]

A escreve um poema. B continua-o num desenho. Baseando-se nesse desenho, C compõe uma música. Graças a ela, D consegue aperfeiçoar os movimentos de um motor. Este último permite a E descobrir uma nova cura, que inspira F na sua teoria sobre a evolução do pensamento humano. G aplica a teoria de F em poesia. G e A são a mesma pessoa. Ou então: um poema só é válido se a sua última palavra for também a primeira palavra de dez poemas a escrever, a primeira pincelada de cem quadros a pintar, a primeira nota de mil sinfonias a compor. A poesia é indivisível e supera o poema, o seu tapa-buracos.

*

Tudo é desespero na poesia: o achado ainda não é o poema, a perfeição já não é o poema. 

[...]

Escreve como se as tuas obras fossem já póstumas, e a tua língua uma língua morta. Mas: traduz todos os dias o teu poema da véspera na tua língua de amanhã. 

[...]


- ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]

sábado, 18 de março de 2017

R de Rebeca (XII)


Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar,
e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente e oca tarde, um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com um sulco de fumo azul; isto é tudo o que há de importante.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, de suportar a tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem-vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.


- Derek Walcott [1930 - 17 de Março de 2017]
in The Bounty, 1998
[Trad. Inês Dias]